sexta-feira, 2 de outubro de 2015

A Faca Sutil - Philip Pullman

Se existe algo como sombra coloridas, era o que refletia a lâmina da faca sutil.” 


Título: A Faca Sutil

Autor: Philip Pullman

Título Original: The Subtle Knife

Tradução: Eliana Sabino

Série: Fronteiras do Universo


Editora: Objetiva

                                                             2013






      Em A Bússola de Ouro, somos introduzidos no universo fantástico de Philip Pullman. O autor nos apresenta à Lyra e Pan, ao aletiômetro, à Sra. Coulter, aos dimons e muito mais; e desde então, o leitor é preso pela curiosidade acerca dos mistérios do pó – o que me leva a crer que os leitores mais ansiosos por respostas não ficarão tão satisfeitos ao lerem A Faca Sutil. Neste segundo volume, Lyra já não é o centro das atenções. A garota continua sim desempenhando um papel importante na história, mas desta vez os holofotes estão em William Parry. Essa mecânica funciona no sentido de retirar a carga presencial de Lyra, pois em A Bússola de Ouro, a necessidade de tudo ter que acontecer envolvendo a garota, irrita em certos pontos. Will tem doze anos e vive com a mãe com problemas mentais, em Oxford. O garoto, que nunca conhecera o pai, percebe que as alucinações da mãe na verdade são acontecimentos reais, e que corre um grande perigo. Decidido a buscar tanto resposta quanto segurança, Will sai de casa e acaba encontrando uma janela para outro mundo. Ele conhece Lyra nessa cidade fantasmagórica chamada Cittagàzze.
      Neste volume, a criatividade de Pullman é muito bem explorada. Ficamos a par de uma diversidade fictícia enorme. O autor nos mostra sua habilidade de mesclar o mundo fictício e o mundo real.

“— Oxford? — exclamou ela. — É de onde eu vim!
— Então no seu mundo também existe uma Oxford? Você não veio do meu mundo.
— Não mesmo — disse ela. — São mundos diferentes. Mas no meu mundo existe uma Oxford também. Nós dois estamos falando inglês, não estamos? É óbvio que outras coisas são iguais. Como foi que você passou? Existe uma ponte, ou o quê?”

      E é este o objeto fantástico que permeia neste volume. Essas “janelas” entre mundos, não são feitas sozinhas, mas sim com a Faca Sutil. E, assim como o aletiômetro, a faca precisa de um portador, que por sinal não é ninguém menos que o nosso protagonista.

“— Escuta — disse. — Não me interrompa. Se você é o portador da faca, tem uma missão maior do que pode imaginar. Um menino... Como é que eles deixaram isso acontecer? Bem, já que tem que ser... Vem aí uma guerra, garoto. A maior que já existiu. Já aconteceu uma coisa parecida, e desta vez o lado certo tem que vencer... Durante todos os milhares de anos da história humana, só tivemos mentiras, propaganda, crueldade e hipocrisia. Está na hora de começarmos de novo, mas desta vez da maneira certa...”

      Além de toda a aventura que se segue ao longo da trama, Pullman volta novamente à questão do Pó. Não que sejam esclarecidas todas as dúvidas, mas começamos a caminhar para uma possível resposta pra todo esse mistério.

“— Como assim? Preciso saber disso, Carlo — disse a mulher, e Will sentia sua apaixonada impaciência. — Isto está no centro de tudo, essa diferença entre crianças e adultos! É onde está guardado todo o mistério do Pó!”

      E não obstante, o autor nos segreda um possível confronto entre a Igreja e a Ciência.


“Acredito que ele desistiu de uma luta contra a Igreja não porque a Igreja fosse forte demais, mas porque ela é fraca demais para valer a pena.”

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

A Tormenta de Espadas - George R.R. Martin

 “Os deuses fizeram a terra pra todos os homens partilharem. Mas aí os reis chegaram com suas coroas e espadas de aço e disseram que a terra era toda deles.”
Aviso: Esta resenha revela conteúdo do antecessor deste livro, deixando para o leitor toda a responsabilidade de lê-la.

Título: A Tormenta de Espadas

Autor: George R. R. Martin

Título original: A Storm of Swords

Tradução: Jorge Candeias

Série: As Crônicas de Gelo e Fogo

Editora: LeYa

                                                            2011



      No fim de A Guerra dos Tronos, Martin dá início, finalmente, à guerra propriamente dita. Lembro-me que o segundo volume, A Fúria dos Reis, não me agradou porque a guerra fora tratada de uma forma política e verbal, de modo a me deixar apreensivo a respeito do terceiro volume.
      Para minha felicidade, como o próprio nome sugere, A Tormenta de Espadas é repleta de batalhas e confrontos. É neste livro que a narrativa começa a acelerar e a trama toma o rumo crucial da guerra. As decisões feitas no segundo volume começam a tomar proporções significativas, e conhecemos a impiedade de Martin.
      O enredo se resume a alguns personagens: seguindo viagem com Brienne, Jaime é liberto por Catelyn Stark, com o intuito de chegar a Porto Real e trocá-lo pelas filhas. Robb precisa organizar suas estratégias de guerras e pensar em sua prometida, uma Frey da travessia. Daenerys continua no Sul, passando por cidades escravagistas reunindo seu exército. Tyrion precisa lidar com seu pai, a atual mão do rei. Arya continua foragida, enquanto Bran vai rumo à Muralha encontrar o corvo de três olhos. Jon encontra-se entre os selvagens que apresentam uma ameaça.


“Nos Sete Reinos dizia-se que a Muralha marcava o fim do mundo. Isso também é verdade para eles (selvagens). Tudo dependia do lado em que se estava”

    
   É interessante analisar a construção fictícia do autor. O modo como as coisas acontecem é surpreendente, pois, mesmo que há uma guerra por poder em Westeros, Martin nos mostra que a trama vai muito além disso e que há outras ameaças e conflitos maiores. Selvagens, R’hllor e seus sacerdotes vermelhos, Daenerys e seus dragões, os Outros...


“— Mas quando os mortos caminham, muralhas, estacas e espadas não significam nada. Não se pode lutar com os mortos, Jon Snow. Ninguém sabe disso tão bem quanto eu.”


      Em Porto Real, Sansa ainda é mantida cativa, mas ao menos se livrara de Joffrey. O Rei no Trono de Ferro agora se casará com Margaery Tyrell. O casamento envolve outras grandes casas, como os Martell e os próprios Tyrell, e o leitor percebe que mesmo que esses reinos não sejam tão evidenciados, possuem sim seus poderes.


“E agora o idiota do meu filho está fazendo o mesmo, só que está montando um leão em vez de um palafrém. Eu preveni-o de que é fácil montar um leão, mas não é tão fácil assim desmontá-lo.”


      Enfim, é uma leitura mais que satisfatória e muito recomendada! Não me desapontou em nenhum ponto, e acho que merece uma chance de ser lido por qualquer leitor que preze uma boa narrativa. Leia A Tormenta de Espadas e veja por você mesmo como George R. R. Martin é cruel... haha.


“— Mantenha sempre seus inimigos confusos. Se nunca estiverem seguros de quem é ou do que quer, não podem saber o que é provável que faça em seguida. Às vezes, a melhor maneira de confundi-los é fazer coisas que não têm nenhum propósito, ou até que parecem prejudicar você. Lembre-se disso, Sansa, quando começar a jogar o jogo.”


quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Corações de Neve - Raphael Draccon

“Se um ser humano vive da violência, também será essa a única forma pela qual saberá se comunicar”




Título: Corações de Neve

Autor: Raphael Draccon

Série: Dragões de Éter


Editora: Leya

2010






      A narrativa do segundo volume da trilogia Dragões de Éter se inicia imediatamente após o término do primeiro, e sem dúvida o acontecimento mais marcante da história deste volume é a coroação de Anísio Branford, que assume o reinado em Arzallum devido à morte do pai.

“— É possível morrer através do pranto, sábio tio?
— Não. Mas é possível através da dor que vem com ele”

      O pano de fundo desta vez, não é o envolvimento com bruxaria, mas sim o Punho de Ferro, um torneio de pugilismo que reunirá competidores de todos os cantos do mundo. Junto com o torneio, o autor – além de desenvolver questões políticas e rivalidades – nos mostra a diversidade cultural e social de seu universo fictício. Temos um envolvimento das terras orientais, com seus gênios e magias – realidade distante até mesmo para os próprios personagens – que prometem uma revolução.

“— Para trazer a Arzallum a evolução que prometes e para fazê-lo sob os termos de trazê-la até aqui primeiro do que aos outros, imagino que cobres um preço alto, não, senhor Rumpelstichen?”

      Há também a aparição de um protestante famoso, cujos ideais são abraçados por grande parte da população, e que desencadeará um papel importante no enredo.

“— A nossa utopia.
—Sherwood. Você quer libertar Sherwood!”

      Não é segredo que criar uma história fictícia é tarefa árdua, e arrisco em dizer que recontar uma história já criada é ainda mais complicado. Sim, é divertido reconhecer as referências que o autor nos propõe ao longo da narrativa, mas mexer com histórias que estamos tão familiarizados é arriscado demais.
      No volume anterior percebi que o autor pecou em algumas escolhas para o fluxo que o enredo estava tomando, e neste volume, para minha insatisfação, não foi diferente. Devo dizer que, em perspectiva com os contos originais, a versão de Draccon apresenta acontecimentos chocantes e nem um pouco verossímeis. É verdade que a narrativa contemporânea e flexível facilita a compreensão do leitor, mas em comparação com outras leituras, ela carece de ritmo.
      De fato eu já havia percebido esses aspectos na escrita do autor, mas isso não me incomodara ao longo da leitura do primeiro volume devido ao enredo cativante e envolvedor. Por vez, em Corações de Neve – como o nome sugere --, a narrativa é tomada por um sentimentalismo exagerado e piegas, resultando em situações que, mesmo para um conto de fada, clichê e previsível. Somado a esses fatores, há inúmeros diálogos pobres, a criação de algumas personagens não agrada, os acontecimentos não surpreendem...

“Existem poucas, bem poucas coisas pelas quais vale a pena viver e morrer. O amor é uma delas”


      Dentro do possível, Raphael Draccon nos mostra uma gama infinita de referências à cultura pop e versões alternativas aos originais contos de fada, mas a bem da verdade, Corações de Neve colocou Dragões de Éter em uma montanha russa de decepções que só crescem.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Leitura em Dupla: Parte IV

Essa postagem faz parte do Leitura em Dupla, em parceira com o Leia-me Já!. Confira a parte I aquiparte II aqui e parte III aqui

Quarta seção de discussão de Tubarão de Peter Benchley. Capítulos 12 a 14.

Tópicos discutidos nesse post:
- O Confronto final
- Final geral
- Finais individuais: Brody e Ellen
- Finais individuais: Larry Vaughan
- Finais individuais: Matt Hooper e Quint
- Conclusão e considerações finais.

[O CORUJAL NÃO SE RESPONSABILIZA PELOS SPOILERS AQUI POSTADOS!]

O CONFRONTO FINAL

LEIA-ME JÁ!: Havíamos especulado sobre o final, você acreditando na possibilidade de Brody morrer e eu não. Não considerava essa hipótese por Brody ser o protagonista, e isso não seria muito comum. O que não consideramos foram as mortes tanto de Hooper quanto de Quint. Acreditávamos que apenas uma pessoa morreria na caçada, e no caso de Hooper, a traição de Ellen permaneceria no passado, e foi o que aconteceu. Creio que a morte de Quint, no entanto, serviu apenas para dramatizar um pouco a trama.
O CORUJAL: Realmente. Por mais que nossas apostas de quem sairia vivo daquela caçada, ambos concordávamos que apenas uma pessoa morreria, e não foi o que aconteceu.
LEIA-ME JÁ!: Gostei muito das cenas de ação da caçada, a todo momento me vinha a música do filme na cabeça. Só me incomodou o fato do tubarão sair muitas vezes da água, acho que isso não é um comportamento natural desse animal. Não pude deixar de lembrar do começo do livro, quando o autor descreve o ponto de vista tanto da vítima quanto do tubarão durante o ataque. Nesse último confronto, no entanto, vemos o ponto de vista apenas de Brody, e isso confirma nossa especulação de que o autor não está mais preocupado em contar a história a partir do tubarão, e sim da vida dessas pessoas.
O CORUJAL: Realmente não há ponto de vista do tubarão em nenhum momento. Um outro ponto que eu gostaria de ressaltar é que quando o Brody fica sabendo que o Hooper os acompanhará na caçada, ele fica tão preocupado com o cientista, que acaba esquecendo o tubarão. Somente quando ele finalmente fica cara à cara com o tubarão que ele começa a perceber o quão grave é aquela situação. Achei interessante essa transição, porque em nenhum momento do livro, Brody vê o tubarão como uma ameaça pra si, o tempo todo ele o considera apenas mais uma ameaça à população que ele precisa lidar. E quando finalmente ele vê o tubarão de perto, “cai a ficha” e ele percebe que ele também corre perigo.

Sua mente estava cheia de imagens de algo como um torpedo se elevando na escuridão do mar e estraçalhando o corpo de Christine Watkins em pedaços; do menino na boia sem saber, sem ao menos desconfiar, até de repente ser atacado por uma criatura de pesadelo; e de pesadelos que sabia que teria, sonhos de violência e sangue, e uma mulher gritando que ele tinha matado seu filho. (página 229)

LEIA-ME JÁ!: Sim, conseguimos perceber que ele só percebe o que o tubarão realmente representa quando se depara com ele. Há outro fator que me incomodou nesse último confronto, não sei se por intenção do autor ou pela perturbação das personagens, mas me pareceu que o tubarão possuía algum tipo de inteligência, como se soubesse o que tinha que ser feito. Não gostei disso porque me soou mais um terror sobrenatural, o que não é o caso. Durante a caçada as personagens retratam a cena como se o tubarão tivesse alguma estratégia para pegá-los, e isso tira o aspecto verossímil que o livro teve até esse ponto.

Brody lembrou-se daquele sorriso de soslaio a encará-lo de dentro d’água. Não sei. Disse. Ontem aquele peixe, com certeza, parecia mal, como se ele quisesse ser mal, como se soubesse o que estava fazendo.

O CORUJAL: Também reparei nesse ponto e não gostei. Me lembro de uma cena onde Quint está mirando de frente para o tubarão, pronto para atingi-lo, mas o peixe passa por debaixo do barco e ataque o outro lado, como se soubesse que estava correndo risco. No decorrer do livro todo eles dizem que o tubarão é um animal que age por extinto, que só responde à fome e que ataca tudo que vê pela frente, mas não foi isso que aconteceu. Mas há também a possibilidade de toda essa “inteligência animal”, seja proposital. Às vezes o autor quis retratar dessa forma para mostrar que é uma consequência da tensão das personagens.
LEIA-ME JÁ!: Eu quero acreditar que o autor fez isso para mostrar como aquelas pessoas estavam assustadas a ponto de imaginar coisas, e não que realmente aconteceu.

FINAL GERAL

LEIA-ME JÁ!: O que você achou do autor ter terminado o livro naquele ponto? Achei curioso a forma como o livro acaba, já que a cena inicial é uma mulher entrando na água, e a final é Brody saindo dela. No começo o leitor tem a impressão de que a mulher é o intruso, de que o mar é domínio do tubarão. Já no final, Brody retorna do confronto e sai da água, tive a impressão de que ele conquistou aquele território, já que matou seu antigo “dono”.
O CORUJAL: É o clássico final em aberto, né? Porque a gente não fica sabendo realmente como acabou. Acredito que a cidade prosperou e Ellen manteve seu segredo de adultério. Quanto a esse tipo de final, não tenho nenhum problema, pois acho que nenhum livro tem realmente um fim, nunca há uma conclusão absoluta, portanto, pra mim é indiferente. Isso que você disse sobre o domínio marinho, não havia me ocorrido, mas faz todo o sentido!
LEIA-ME JÁ!: Eu sei que muitas das ligações que acontecem em um livro, nem é proposital da parte dos autores, muitas vezes é coincidência, mas não custa nada tentarmos encaixar as coisas, e eu tenho uma teoria. O bom do final em aberto é que o leitor tem uma liberdade de pender as coisas para o lado que ele desejar, mas acho que o autor deixou algumas pistas sobre o que ele espera dessa interpretação.

FINAIS INDIVUDUAIS: BRODY E ELLEN

O CORUJAL: Por mais que eu tenha dito que não me surpreenderia se Brody morresse, o final desses dois foi bem previsível pra mim. Ellen não disse nada da traição e creio que eles ficaram juntos. Só não contava com a pronunciamento do Meadows, o jornalista, que publicou uma matéria dando votos heroicos ao nosso protagonista. Chega a ser cômico o fato de que o tubarão foi a solução para todos os problemas externos o enredo, pois mesmo com todas as mortes, sem o tubarão nenhum problema da cidade e da vida de Brody seria resolvido. Isso me leva a refletir que não podemos atingir o sucesso sem perdas pelo caminho.
LEIA-ME JÁ!: Sim, é como se o tubarão tivesse aparecido para ajustar as coisas, colocar os pingos nos “is”. É verdade que o final fica em aberto, mas como eu disse antes, eu percebi algumas dicas que o autor deixou no decorrer da história. No caso da traição, por exemplo, quando o prefeito visita a Ellen, fica claro que ela quer ficar com o Brody, que se arrependeu do que fez e que reconhece o relacionamento.

Enquanto pensava no que Vaughan tinha dito, começou a reconhecer a riqueza de sua vida: um relacionamento com Brody era mais gratificante que qualquer um que Larry Vaughan pudesse experimentar; um amálgama de testes menores com pequenos triunfos que juntos, resultavam em algo semelhante à felicidade. E à medida que seu reconhecimento crescia, crescia também um certo arrependimento por ter demorado tanto pra ver o desperdício de tempo e emoção na tentativa de se apegar ao passado. Subitamente teve medo – medo de ter amadurecido tarde demais, de que algo pudesse acontecer a Brody antes de ela poder aproveitar essa consciência. Olhou para o relógio: seis e vinte da tarde. Já era pra ele estar em casa. Aconteceu algo com ele. Pensou. Oh, por favor, Senhor, não ele. (página 235)

LEIA-ME JÁ!: Já o Brody, o momento em que ele desiste de procurar a verdade foi com o tubarão. No barco, Brody confronta Hooper, que diz que esteve com Daisy Wicker (que na realidade era lésbica). Entretanto, em um dado momento quando eles voltam da expedição, Brody pensa em ligar para Daisy para confirmar, mas desiste. Acho que a morte de Hooper teve o propósito de reatar o relacionamento entre Ellen e Brody.

Depois de atracar o barco, Brody caminhou até o carro. No fim do cais havia uma cabine telefônica. Ele parou ao lado dela, pronto para pôr em prática sua resolução anterior de ligar para Daisy Wicker. Mas reprimiu o impulso e foi para o carro. Pra que?  Pensou. Se houve algo, agora acabou. (página 258)

O CORUJAL: Um confronto no fim seria mais interessante, mas tudo acabou bem. Interessante analisar que eles mantêm o relacionamento por meio de outras pessoas, já que Ellen e Brody só ficaram juntos pela soma de fatores externos.
LEIA-ME JÁ!: Também esperava um confronto, mas acho que expectamos da maneira errada. Pela narrativa ser do ponto de vista de Brody, ficamos esperando uma atitude dele, mas na realidade, era Ellen que estava insatisfeita com o casamento. A vinda do tubarão fez com que Ellen pudesse experimentar um caso com Hooper, mas aí ela percebeu que não era isso que ela queria realmente.

FINAIS INDIVUDUAIS: LARRY VAUGHAN

O CORUJAL: Achei justo Larry se dar mal por tudo que ele fez pela cidade, mas fico receoso no final, quando Vaughan diz à Ellen que seus negócios ficaram para os sócios. Fico pensando se não teria nenhum risco desse suposto sócio exercer algum poder sob a cidade, e isso seria pior que Larry.
LEIA-ME JÁ!: Sim, também acho justo o que aconteceu com ele por tudo que ele fez (e pelo que não fez). Agora essa ideia do sócio tomar conta dos negócios remonta o predador, acho que deixa a sensação de “Brody matou um tubarão, mas existem outros, um mar inteiro de tubarões prontos para atacarem”.
O CORUJAL: Isso é legal porque tira o clichê de que tudo acaba bem.

FINAIS INDIVUDUAIS: MATT HOOPER E QUINT

LEIA-ME JÁ!: Achei legal Quint ter sido afogado e não atacado pelo tubarão. O autor se conteve quanto a isso e dá um toque mais realista à história. Em outras palavras, mostra que mesmo em um livro sobre um tubarão assassino, morrer em sua mandíbula não é a única forma de morrer.
O CORUJAL: É interessante o papel que a morte do Quint desencadeia no enredo, porque através dela, percebemos a opinião do autor sobre esse tipo de pescador, que não respeita a vida marinha e a natureza em si.

É o que parece quando a boca deles fica aberta. Disse Quint. Não faz parecer mais nada do que ele é. Ele é só um balde estúpido de lixo.
Como você pode dizer isso? Disse Hooper. Aquele peixe é uma beleza. É o tipo de coisa que faz você acreditar em Deus. Te mostra o que a natureza é capaz de fazer quando faz a sério.
Não fala merda. Disse Quint.  (página 227)

LEIA-ME JÁ!: Acho que a morte do Quint foi a forma do autor se vingar dele (risos). Já a morte de Hooper, achei meio tosco a forma como ele insistiu em entrar na gaiola. Depois de ver o tamanho do peixe e do perigo que ele oferecia, foi estupidez dele mergulhar.
O CORUJAL: Também achei estranho um especialista como ele se arriscar tanto. Mas em termos de descrição, nunca vi um capítulo tão agonizante como esse! A parte em que o tubarão começa a abrir espaço entre a gaiola é muito sufocante.
LEIA-ME JÁ!: Verdade, a tensão que o autor cria na narrativa é fenomenal! E na parte em que eles estão caçando, mas o peixe ainda não apareceu, não sei você, mas eu senti que o tubarão estava por perto. Sem contar a música que consegui “ouvir”, tudo isso pela forma como o autor conduz a narrativa.
O CORUJAL: Realmente, a narrativa tem esse ritmo, como se o tubarão estivesse na espreita observando, pronto para atacar a qualquer momento. Isso é um ponto positivo para o autor, já que o leitor consegue realmente sentir a tensão, e isso é uma coisa muito difícil de se fazer.

CONCLUSÃO E CONSIDERAÇÕES FINAIS

LEIA-ME JÁ!: Acho que no fim a cidade prosperou, já que o tubarão virou notícia no país, e consequentemente, uma atração.
O CORUJAL: Analisando o livro como um todo, gostei bastante! Acho que Peter Benchley tem um modo de descrever único que funciona com uma tensão que ele vai criando ao longo da narrativa. Isso é uma coisa que eu nunca tinha visto e que me surpreendeu muito. Gosto da forme como ele cria o terror psicológico, como você mesmo disse, não há mortes pra a todo momento. O terror em si está nas entrelinhas, é algo extremamente sublime.
LEIA-ME JÁ!: Sim! Achei estranho algumas resenhas que li, onde as pessoas reclamavam que o autor se demorava demais em descrever as pessoas e não dava muita atenção às mortes. Mas como você disse, é um terror sublime! Há todo um pano de fundo. E sinceramente, se fosse apenas um livro onde um tubarão mata pessoas, não haveria a construção muito bem feita das personagens, e nós, leitores, não nos importaríamos com elas. Acho que o modo como a obra foi escrita é a melhor possível, a tornou bem mais humana.
O CORUJAL: Realmente, a as personagens são muito bem criadas. Uma coisa que gostei muito no autor é que não há exagero no enredo. Tudo bem que não é comum, mas ele não extrapola como outros autores. É uma história simples, sem nada absurdo, fatos que realmente podem acontecer, e mesmo assim impressiona. Achei perfeito!
LEIA-ME JÁ!: Verdade, o autor não se demora e nem exagera. É simples e certeiro.


sábado, 22 de agosto de 2015

Coração Apaixonado - Chelsea Cain




“— É muito violento. Tem fotos das cenas dos crimes. — Seu estômago queimou só de pensar em seu filho de oito anos lendo o que ela lhe fizera. — Descrições detalhadas de tortura
 — Um vislumbre do seu mundo."



Título: Coração Apaixonado

Autor: Chelsea Cain

Título Original: Sweetheart

Tradução: Angela Pessoa

Série: Beleza Mortal


Editora: Objetiva (Suma de Letras)
                                                          
                                                             2009






      Dois meses após os acontecimentos de Coração Ferido, o nosso detetive Archie Sheridan resolve entrar de vez em uma abstinência de Gretchen Lowell. Na teoria vemos que Archie decidira seguir sua vida sem Gretchen, mas percebemos, também, que deixar a psicopata não é o que o detetive quer.
      No decorrer desses dois meses, os personagens envolvidos no caso do Estrangulador das Escolas seguiram seus rumos. Susan – que mesmo tendo Archie em seus pensamentos – não tem qualquer notícias do detetive, e encontra-se no meio de uma matéria envolvendo um furo político e um possível estupro. Henry e Claire continuam com suas vidas no cotidiano policial. Archie ainda exerce o ofício de detetive e volta a morar com  Debbie e os filhos – mesmo que o espaço entre os dois seja um grande abismo.
      A vida desses personagens voltam a se cruzar quando Archie e Henry descobrem alguns cadáveres em um parque, aliás, o mesmo parque em que encontrara o primeiro corpo deixado por Gretchen, anos atrás. O político que Susan investigava acaba sofrendo um acidente, junto com um parceiro de trabalho, e é a partir deste ponto que os personagens voltam a se envolver. Como é inegável o fato de a beleza mortal ser o ápice da narrativa, você deve estar se perguntando: e Gretchen?! A serial killer ainda é mantida sob custódia, e só volta a receber a visita de Archie após um incidente na prisão.

“Aquilo deixou Archie desolado. Não por ela estar preocupada com a segurança dele, mas por ela acreditar que tinha alguma chance de salvá-lo. Qualquer que fosse a porra de jofo que ele e Gretchen jogavam, era entre eles. Gretchen não se importava com Debbie porque sabia que Debbie não era uma ameaça.”

Em alguns flashbacks a autora nos mostra o passado pré-Gretchen, pois em Coração Ferido, adentramos na história a partir do momento em que Gretchen captura Archie, e não antes disto. Portanto, o leitor descobre alguns acontecimentos de quando a serial killer entra na vida do detetive.

“— Sabe — disse Gretchen — eu sou capaz de sentir emoções humanas.”

Coração Apaixonado, como o nome sugere, explorará o lado sentimental e apaixonado de Archie. Aqui o leitor conhecerá a obsessão do detetive por Gretchen, e verá que ele não é tão diferente dela... A relação que se estabelece entre os dois é doentia, e essa dose-de-absurdo que a autora incrementou é totalmente necessária para não tornar a narrativa melosa e entediante. Não leia Coração Apaixonado pelo título, pois a paixão aqui é não é convencional e, em alguns pontos, nem um pouco crível.

“Às vezes Archie perguntava-se o quanto Debbie sabia sobre o seu relacionamento com Gretchen. Debbie sabia que Gretchen o assombrava. Talvez tivesse até mesmo usado a palavra ‘obsessão’. Mas Archie não achava que Debbie soubesse o quanto ele ultrapassara os limites.”

Sou obrigado a ressaltar os trunfos da autora; a criação dos personagens e o ritmo de narrativa de Chelsea Cain é de cair o queixo! Chelsea consegue nos apresentar à personagens tão humanos, que o leitor se indaga da probabilidade daquilo acontecer realmente. Também é de se admirar a forma como a autora desencadeia os acontecimentos, sem soar, em momento algum, amadora.

“E então ele percebeu que não estava com medo dela.


Estava com medo de nunca mais vê-la.”